Fotografias

Filipa Aurélio

Filipa Aurélio é natural de Lisboa e residente em São Paulo desde 2014. Fotografa o circuito de música independente brasileiro, acompanhando a presença cada vez maior de mulheres nos palcos através de um olhar intimista e empoderador. Co-criou o projecto audiovisual We Are Not With The Band e organiza workshops de fotografia de concertos.

Filipa Aurélio is from Lisbon and lives in São Paulo since 2014. She photographs the brazilian independent music circuit, following the growing presence of women in stages through an intimate and empowering look. She co-created the audiovisual project We Are Not With The Band and currently organises live music photography workshops.

Texto

Mel Duarte

Mel Duarte é escritora, poeta e slammer. Integra o colectivo Slam das Minas SP. Tem quatro livros publicados e um disco de spoken word chamado Mormaço – Entre outras formas de calor, o primeiro lançado por uma poeta negra brasileira.
Mel Duarte é escritora, poeta e slammer. Integra o colectivo Slam das Minas SP. Tem quatro livros publicados e um disco de spoken word chamado Mormaço – Entre outras formas de calor, o primeiro lançado por uma poeta negra brasileira.

Mel Duarte is a writer, poet and slammer. Member of the Slam das Minas SP collective. She has four books published and a spoken word record called Mormaço – Entre outras formas de calor, the first released by a black Brazilian poet.

Elas sobem ao palco e, no primeiro acorde, te transportam para outra dimensão. Quando nos conectamos com uma música formamos egrégoras, sintonizamos sensações adormecidas e entramos no campo vibracional de quem nos conduz a uma viagem sonora com passagem só de ida.

Para mim é irrefutável, mulheres são portais por si só. Quando estão num palco transcendem e abrem frestas atemporais por dimensões infinitas.

LINIKER

“A todas presentes no lugar, peço licença pra entrar,

quem veio antes de mim, e quem ainda virá,

peço licença pra entrar.”

Com essa saudação abro os trabalhos do meu primeiro disco, Mormaço – Entre outras formas de calor, pois entendo que se hoje posso pisar nessa terra verbo fértil é porque muitas mulheres abriram caminhos, e assim ainda o fazem.

Minha coragem para ocupar um palco, escrever canções, gravar um disco, só existiu porque vi outras semelhantes fazendo o mesmo, me inspirando e rompendo com as barreiras não só visíveis e palpáveis dessa indústria, mas também os muros velados que privilegiam homens, brancos e cisgêneros.

XÊNIA FRANÇA
JOSYARA

Eu, negra menina que sou, vi meus olhos de estrelas constelarem ao encontrarem mulheres-multidões – como Xênia França, Josyara, Liniker – que me transpassam com suas canções e performances, por carregarem seus instrumentos como quem carrega vida de outras vidas e, assim, preenchem breus inimagináveis, transmutam energia.
Vê que é sobre plenitude? Sê imensa na entrega, consciente que isso volta.
Vê que é sobre troca? Porque mesmo assim exposta, ainda transborda
De braços e peito abertos reverbera e sustenta
Canta que tua voz me encoraja e me coloca em movimento pra fazer a diferença.

Mulheres nunca estão sós, ocupam espaços e carregam uma legião de ancestrais. Falamos por nós e por tantas que foram silenciadas, invisibilizadas ao longo da história.

Hoje, somos sustentadas por redes de afeto, no palco, na vida pessoal e nas burocracias
Hoje, nos conectamos e temos a escolha de somar com outras iguais para realizar shows e obter registros profissionais de vídeo e fotografia.
Me afaga o peito a existência de mulheres na indústria musical, do cargo dito mais singelo até o último escalão, nossa ascensão é visível ainda que tardia, mostramos novas possibilidades de sobrevivência dentro da arte e, no mais, o que fica é poesia.

KELELA
English Version

Sing for your voice encourages me!

They take the stage and, on the first chord, transport you to another dimension. When we connect with music, we form egregores, we tune in to sleeping sensations and enter the vibrational field of those who lead us on a sound journey with a one-way ticket.

For me, it is irrefutable, women are portals in themselves. When they are on a stage, they transcend and open timeless cracks through infinite dimensions.

LINIKER

“To everyone present at the place, I ask permission to enter,

who came before me, and who will come,

I ask permission to enter”.

With this greeting, I open the works of my first album, Mormaço – Entre outras formas de calor, because I understand that if I can step on this fertile verb today, it is because many women have opened up paths, and still do so.

My courage to occupy a stage, write songs, record an album, only existed because I saw similar ones doing the same, inspiring and breaking with the barriers not only visible and palpable in this industry, but also the veiled walls that privilege men, white people and cisgenders.

XÊNIA FRANÇA
JOSYARA

I, the black girl that I am, saw my eyes constellate as stars when meeting with crowd-women – like Xênia França, Josyara, Liniker – who pierce me with their songs and performances for carrying their instruments as if carrying life from other lives and, thus, fill unimaginable holes, transmute energy.
Can you see it’s about plenitude? Be immense in surrender, aware that it comes back.
Can you see it’s about exchange? Because even when exposed, it still overflows
With open arms and chest, it reverberates and sustains
Sing for your voice encourages me and sets me in motion to make a difference.

Women are never alone, they occupy spaces and carry a legion of ancestors. We speak for ourselves and for so many who have been silenced, made invisible throughout history.

Today, we are supported by networks of affection, on stage, in personal life and in bureaucracies.

Today, we connect to each other and we can choose to add to other equals to perform shows and obtain professional video and photography records.

I am touched by the existence of women in the music industry, from the simplest position to the last echelon, our rise is visible even if it came in late, we show new possibilities of survival within art and, for the rest, what remains is poetry.

/ Translation by Saoussen Khalifa

KELELA

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